domingo, 7 de agosto de 2011

Volta para Casa

     Todos os dias quando estou no ônibus voltando para casa, eu fico pensando nos meus objetivos de vida e chego a conclusão que nascer foi meu pior castigo. Ainda que eu tenha saudades de caçar borboletas, a vida nunca foi tão divertida para mim.. O fato de os meus princípios afastarem de mim muita gente não me incomoda, sei que elas não me fazem falta, e é bom, pois isso evita que eu me torne mais um assassino frio e calculista nas cenas de homicídios dolosos triplamente qualificados. Algumas pessoas têm um jeito tão encantador que eu prefiro tratá-las com frieza para evitar me apaixonar. As vezes olho para a face saudável de outras e fico me perguntando sobre como elas conseguem ser tão comuns, passar pela vida como mais um infeliz que foi ensinado a viver e a morrer. Alguém com certeza colocou em suas cabeças que elas são felizes, que seus sorrisos não são tão amarelos, e que seus lindos olhos são realmente as janelas de suas almas.
     A verdade é que sofro de tuberculose e o fumo só piora minha situação.
     A cerveja? O gosto amargo me rasgava a garganta, era como alguém mascarado tentando me estrangular, hoje em dia a cachaça me encanta, ela põe um riso leve e infantil em meu rosto que meus amigos há muito não são capazes de esculpir. As estrelas do céu me faziam sonhar antes mesmo de dormir, hoje em dia me lembram que eu sou a insônia da noite esperando os vaga-lumes apagarem para dormir. Já acreditei no mundo, já confiei em pessoas comuns:duas pernas, dois braços, trinta e dois dentes. Atualmente, por um tempo, preciso me isolar, ainda tento entender certas atitudes que eu julgo certas, mas que todos insistem em dizer que são erradas. Talvez eu seja um erro. Não que eu me importe com este tipo de vida destrutiva em que assassinar meu corpo é libertá-lo, o que me incomoda é ver a tristeza nos olhos de meus amigos, que pensam que serei infeliz no futuro, eu realmente queria que eles entendessem que serei jovem eternamente, levarei pro túmulo a beleza que meus vinte primeiros anos me deram, não permitirei que o tempo roube ela de mim.
O ônibus pára no semáforo, meus pensamentos então alimentam uma cena em câmera lenta do veículo indo de encontro ao poste. Eu escuto perfeitamente os curtos gritos de maneira mais demorada, eu vejo detalhadamente cada olhar de pavor, eu sinto na alma cada criança tendo suas vidas ceifadas pela foice de algum destino incopetente, o motorista sujar o volante de sangue, os idosos quebrando suas últimas vértebras, um eventual cão guia vendo seu dono entrar na escuridão completa da morte. A morte, sim, ela também sempre chega à minha poltrona, posso sentir as dores vindo em conta gotas, as ferragens da lataria tocando meu abdomem, a alma descolando do corpo. Uma voz me diz que não é hora de se arrepender, é hora de conhecer a dor, o terrível lugar destinado aos pecadores.
     O ônibus explode, os corpos carbonizam, o cão sente ciúmes do seu dono guiado pelos anjos, a perícia recolhe as arcadas dentárias onde a minha parece sorrir.
Ao descer do ônibus eu sempre me pergunto o por que de tanta desgraça só ser possível em minha mente, pois finalmente eu ficaria livre da dificuldade que tenho para amar, da frieza que gelou meu espírito, do deus que eu achei que existia, da comida que como apenas para matar a fome, do gato morto no quintal... Da vela da cozinha que não acende mais.

(Leonardo Dias)

NOTA: Isto se trata de um texto fictício.

Um comentário:

Unknown disse...

Como sempre, mais um de seus textos brilhantes. Mas tem certeza que se trata de um texto fictício?
Não existe nem um pouco de verdade ai?
Fiquei com uma super interrogação na cabeça, devido a tal texto. Rs'

Muito bom mesmo. Parabéns!