
Não gritei ao nascer. Quero morrer gritando. Meu grito de morte deve ser o mais alto possível, para compensar o silêncio fúnebre do meu nascimento. Que o eco de meu grito atrapalhe o vôo dos morcegos na noite, que eles choquem-se uns com os outros e juntem-se a mim. Quero que meu grito quebre a taça de vinho de meu assassino, claro, caso eu seja assassinado por um homem bebendo o drinque que eu sempre sirvo às minhas visitas na sala de estar. Que meu grito quebre a taça, que quebre as estrelas, o equilíbrio ecológico. Quero o grito mais perfeito, para que não o confundam com uma gargalhada, para que possa transmitir... Para que carregue nele (sem deixar cair) o pesar da minha morte. Quero o grito mais agudo, o harmônico mais potente, o uivo mais profundo... Para acender as luzes dos prédios da lagoa, para superar os três tenores, para atrair as cadelas no cio. Quero um grito denso, mais ou menos atordoante, que faça os ouvintes se sentirem num quarto escuro, como se o único sentido dos homens fosse a audição. Que haja na ciência a velocidade do som, a da luz, e a Velocidade Do Meu Grito. Quero as aves caladas e os galos mudos para que a aurora não cante em respeito à minha morte, não por um minuto de silêncio, quero a aurora calada para sempre. Quero o grito mais divino e mais pecador ao mesmo tempo, para que Deus e Diabo disputem minha alma. Que haja guerra no céu, que haja guerra no inferno, tudo pela minha voz, para me ter como líder de um coro de anjos divinos ou caídos. Que as cigarras envergonhadas não gritem mais. Quero um grito MAIS ALTO que o de alguém atropelado, que percebe por segundos que acaba de morrer, que não tem tempo para pedir perdão, que apenas percebe, grita e morre. Que não pisca, não respira, apenas olha para o motorista, grita alto (soprando sua alma para longe) e morre. Mas quero um grito MAIS ALTO: talvez o grito de um homem esfaqueado por trás pelo seu melhor amigo (dor, susto, ódio e decepção), onde a faca rompe o intestino grosso com um corte delgado, para que o mínimo de sangue saísse de seu corpo, e assim ele pudesse gritar por mais tempo, enquanto pisca, enquanto respira, enquanto olha para seu amigo assassino, enquanto, ainda gritando, pede perdão a Deus e morre. Quero ser lembrado como um homem que nasceu calado por um parto complicado e prematuro (ou por não querer nascer), e que agora desnasce gritando, talvez por uma felicidade mórbida e até macabra e sem motivo, é que o corpo grita de dor pela sua morte, mas há algo preso dentro dele que grita de alívio por sair de seu cárcere. Então eu seria uma lenda que contariam às criancinhas dizendo que meu grito saiu de mim, passou por cada tímpano, se somou a cada eco, percorreu o ar, a água, o vácuo, chegou ao Universo comum e paralelo, e lá fez um sexto sentido, um quinto elemento, um meio termo entre bem e mal, e assim fundou uma quarta dimensão, então passou a existir a Terra, o Céu, o Inferno e o Meu Lar, o lugar mais lindo entre todos os paraísos, onde a oitava maravilha do mundo é uma estrela no chão, o lugar para onde eu fui ao morrer, onde eu finalmente alcancei a paz, onde toda criança que corta seus pulsos gritando bastante merece morar.
(Leonardo Dias)